domingo, 4 de março de 2018

A PSICOLOGIA HOSPITALAR E A HUMANIZAÇÃO DA SAÚDE




Por Raquel Rocha
Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Especialista em Neuropsicologia
Pós-graduanda em Terapia Familiar
Comunicóloga,  Economista
Membro da Academia de Letras de Itabuna

A Psicologia Hospitalar tem como objetivo minimizar o sofrimento do sujeito em processo de hospitalização. Diferentemente da medicina, o foco da psicologia hospitalar não está na patologia, mas nas consequências emocionais do adoecimento.

A internação pode acabar se tornando a fase mais difícil do adoecimento. Ao ser hospitalizado o paciente perpassa por um processo de despersonalização, perdendo sua autonomia, passando a ser um número de prontuário. Muitas vezes o olhar da equipe hospitalar não é para a pessoa do paciente, mas para sua patologia, seu câncer, seu AVE, sua inflamação, seu diabetes. O sujeito em sua integralidade e subjetividade perde sua autonomia e deixa de ter significado próprio.

A hospitalização restringe o espaço vital do paciente, implica em uma desorganização na rua rotina, longe do conforto do seu lar o paciente já não escolhe como conduzir sua rotina, não escolhe o que comer, que horas tomar banho, que horas acordar, em muitos casos não escolhe a hora das suas visitas. Aliado a retirada de seu espaço e de sua liberdade de decidir seu dia-a-dia o paciente também passa por processos dolorosos, muitas vezes invasivos. O próprio diagnóstico do paciente se traduz, por vezes, em instrumento de estigmatização e preconceito, ignorando-se todo o não dito, não escutado por trás da patologia.

Até então, os hospitais, com raras exceções, seguem uma estrutura rígida, engessada no que tange a horários, entradas e saídas de pessoas, alimentos e objetos pessoais.  Algumas regras são necessárias para o bom funcionamento da instituição mas nem por isso deixam de provocar desconforto e sofrimento no paciente, aspectos esses que precisam ser minimizados o máximo possível.

No que tange à relação médico paciente, com exceção dos que possuem uma visão voltada para a humanização, vemos que, na maior parte das vezes, essa relação já não tem tanto espaço para o diálogo e é cada vez mais substituída por exames, ignorando-se que por trás do diagnóstico há um nome, uma história, uma pessoa que deseja,  que sente, que sofre. É preciso que equipe-instituição hospitalar veja o paciente como um todo indivisível. De acordo com a Política de Humanização da Assistência à Saúde “Uma das diferenças entre o ser humano os animais irracionais é que seu corpo biológico é envolvido, desde a infância, por uma rede de imagens e palavras, apresentadas primeiro pelos pais, pelos familiares e, em seguida, pela escola, pelo trabalho, enfim, por todas as relações sociais. É esse ‘banho’ de imagem e de linguagem que vai moldando o desenvolvimento do corpo biológico, transformando-o em um ser humano, com um estilo de vida singular.”

A função do Psicólogo Hospitalar é justamente considerar toda subjetividade do sujeito, minimizando seu sofrimento psíquico, até mesmo porque este sofrimento pode implicar no agravamento da própria doença. Para Simonetti (2004, p. 29) “a psicologia hospitalar é o campo de entendimento e tratamento dos aspectos psicológicos em torno do adoecimento”. O Psicólogo olha para o paciente em toda sua singularidade, alguém que sente angústia, tristeza, ansiedade, medo, alguém que tem vontade própria, uma história de vida e todo um processo de subjetivação. 

A psicoterapia dentro de um hospital não segue os moldes de uma um setting terapêutico tradicional. O psicólogo tem que lidar com o desconforto do paciente, as dores físicas, as interrupções. Cada sessão tem início, meio e fim, pois o profissional não sabe quantos encontros ainda terá com o paciente. Além do paciente o profissional atua junto aos familiares e à equipe de serviço. Devido à multiplicidade das demantas, por mais que se estude sobre a psicologia hospitalar o aprendizado real ocorre na experiência que se desenha no cotidiano da atuação em um hospital, onde o psicólogo, muitas vezes, passa por situações inusitadas. “Tratar a pessoa, e não a doença foi um dos objetivos mais valiosos em psicologia hospitalar, e tal só se possível quando se conhece minimamente a vida da pessoa seus interesses, seus assuntos favoritos, seu trabalho, sua condição de vida, etc. e uma ótima maneira de se alcançar esse conhecimento é conversando de maneira descompromissada com o paciente.” (SIMONETTI, 2004, p. 125).

Entre as atividades do psicólogo da Saúde definidas pelo Conselho Federal de Psicologia (2003a), cabe ao psicólogo hospitalar: atendimento psicoterapêutico, organizar e atuar em psicoterapia de grupo, grupos de psicoprofilaxia e psicoeducação, atendimentos em ambulatório, atendimentos em unidade de terapia intensiva, pronto atendimento nas enfermarias, psicomotricidade no contexto hospitalar, avaliação diagnóstica, psicodiagnóstico, consultoria e interconsultoria e atuação em equipe multidisciplinar

A Psicologia hospitalar já nasce em consonância com as diretrizes da Política de Humanização da Assistência à Saúde lançada 2002:

Mas então, o que é humanizar? Humanizar é garantir à palavra a sua dignidade ética. Ou seja, para que o sentimento humano, as percepções de dor ou de prazer sejam humanizadas, é preciso que as palavras que o sujeito expressa sejam reconhecidas pelo outro. É preciso, ainda, que esse sujeito ouça do outro palavras de seu reconhecimento. É pela linguagem que fazemos as descobertas de meios pessoais de comunicação com o outro. Sem isso, nos desumanizamos reciprocamente.

A introdução do psicólogo no hospital deve contribuir para maior bem estar do paciente que se percebe acolhido e escutado, possibilitado de compreender e ressignificar seu adoecimento e todas as implicações do mesmo. O psicólogo deve contribuir, ainda, para maior integração entre toda a equipe porque diálogo, o vínculo, o respeito e a valorização entre os profissionais implica em maior qualidade de trabalho e maior eficácia no atendimento ao paciente. “Sem comunicação, não há humanização. A humanização depende de nossa capacidade de falar e de ouvir, depende do diálogo com nossos semelhantes.” (PHAS)


REFERÊNCIAS

Conselho Federal de Psicologia
Política de Humanização da Assistência à Saúde (PHAS)
RODRÍGUEZ-MARÍN, J. En Busca de un Modelo de Integración del Psicólogo en el Hospital: Pasado, Presente y Futuro del Psicólogo Hospitalario. In Remor, E.; Arranz, P. & Ulla, S. (org.). El Psicólogo en el Ámbito Hospitalario. Bilbao: Desclée de Brouwer Biblioteca de Psicologia, (2003).
SIMONETTI, A. (2004). Manual de Psicologia Hospitalar. São Paulo: Casa do Psicólogo.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Imagens Psicanálise Citação Freud

 
 
Diferenças e Semelhanças entre: Psicoterapia, Psicoterapia Psicanalítica, Psicanálise Standard

 

Fundamentos Psicanalíticos Básicos
 
Segundo esses fundamentos freudianos o terapeuta trabalha essencialmente com a noção dos princípios e leis que regem o inconsciente dinâmico, e a prática clínica conserva uma obediência aos requisitos psicanalíticos básicos, tais como:

-A instituição e a manutenção de um setting adequado

-Uma atenção prioritária na existência de um campo analítico, com as respectivas resistências, transferências, contratransferência

-Uma continuada atividade interpretativa.

 Tais aspectos, como o próprio Freud, em A História do Movimento Psicanalítico (1914), costumava assinalar “distinguem a psicanálise das outras formas de psicoterapias”

Referências: ZIMERMAN, D. E.
Fundamentos Psicanalíticos: Teoria, técnica e clínica.
Porto Alegre: Artmed, 1999

 




"A repetição é uma transferência do passado esquecido."
Freud, 1914 - Recordar, Repetir e Elaborar

 
 
Os 5 estágios da Psicanálise Freudiana
 
 
 
Comitê dos 7 anéis- Círculo dos 7 anéis
 
Foto tirada em 1922. Em pé, da esquerda para a direita: Otto Rank, Karl Abraham, Max Eitingon e Ernest Jones. Sentados, da esquerda para a direita: Sigmund Freud, Sándor Ferenczi e Hans Sachs.
 
 
 
Conceito de Pulsão de Vida e Pulsão de Morte no livro O Mal Estar na Civilização- Citação de Sigmund Freud
 
 
 
 
 
Citação Frases Freud Psicanálise Quotes Trechos Autoria Verificada Autoria Verdadeira Psicologia

sábado, 3 de junho de 2017

A Transgeneridade na visão Fenomenológica




Por Raquel Rocha
Comunicóloga,  Economista
Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Especialista em Neuropsicologia
Membro da Academia de Letras de Itabuna 


Um dos temas mais discutidos na contemporaneidade e que se apresenta como um grande desafio para os Psicólogos é a Transgeneridade. Transgêneros são pessoas que possuem uma identidade de gênero diferente do seu sexo biológico. A transgeneridade não é uma orientação sexual é uma identidade.

A hipótese científica pra os transgêneros é a de que nesses indivíduos o cérebro não se desenvolve em sintonia com a genitália do embrião. O psiquiatra do Hospital das Clínicas, Alexandre Saadeh em entrevista ao programa Fantástico da Rede Globo corrobora com essa explicação, segundo o médico no embrião humano a genitália se desenvolve por volta da décima semana mas nessa fase o cérebro ainda está se desenvolvendo e ainda não tem uma identidade de gênero. Somente na vigésima semana é que se denine a área no cérebro onde ocorre a identidade de gênero. Normalmente no embrião com órgão sexual masculino o cérebro se define como masculino. Da mesma forma, quando o órgão sexual é feminino, o cérebro se define como feminino. Mas em alguns casos o cérebro se desenvolve no sexo oposto ao órgão sexual, dando origem ao indivíduo transgênero. Um transgênero já nasce transgênero, não se torna transgênero pela criação dos pais, nem por escolha própria.
Um artigo feito por pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Boston avaliou 40 trabalhos sobre o tema e aponta que a identidade de gênero é uma condição biológica que não pode ser modificada através de intervenção psicológica. A literatura até o momento monstra que ha diversas particularidades biológicas que podem definir a identidade de gênero, como características de algumas áreas do cérebro e genes relacionados à produção hormonal. (Fonte BBC)
 
A identidade de gênero independe da opção sexual uma vez que a pessoa transgênera pode ser heterossexual, homossexual ou bissexual. No Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais 5.ª edição ou DSM-5 da Associação Americana de Psiquiatria de 2013 a transgeneridade ainda aparece como um distúrbio nominado de Disforia de Gênero (Códigos 302.6, 302.85 e 302.6) conceituada como “Incongruência acentuada entre o gênero experimentado/expresso e o gênero designado de uma pessoa” tendo como primeiro critério “Forte desejo de pertencer ao outro gênero ou insistência de que um gênero é o outro (ou algum gênero alternativo diferente do designado).”
Em 2015 a Organização Mundial de Saúde- OMS anunciou que deixaria de considerar transgeneridade um distúrbio. Segundo a organização estima-se que uma em cada cem pessoas sejam transgêneras.

Essa questão tem sido debatida como nunca antes em meios acadêmicos, médicos e religiosos, as vezes com informações científicas sérias as vezes permeada de preconceitos. Dentre todas as áreas de conhecimento que precisam compreender esse fenômeno a Psicologia se faz fundamentalmente importante. É condição sine qua non que os profissionais da atualidade debatam sobre a despatologização da transexualidade de forma séria, ética e embasada nos estudos mais recentes. As correntes psicológicas clássicas não se debruçaram especificamente sobre o tema transgeneridade, por motivos diverso: tabu, preconceito, desconhecimento médico da época. O que a princípio parece ser um fator limitador é na verdade uma ferramenta que nos deixa livre para pensar no sujeito por trás do rótulo de transgênero, sem tentar encaixa-lo em teorias. 
 
Como a corrente Humanista na visão Fenomenológica pondera, é importante pensar na pessoa por trás do diagnóstico. Pensar no sujeito trans dentro do seu contexto de dificuldades, enfrentamentos e principalmente dentro dos seus fatores de riscos. Muitas vezes o sujeito transgênero apresenta histórico de tentativas de suicídio, de automutilação, muitos são rejeitados pelas famílias e pelos amigos, sofrem assédio, preconceito e discriminação. Como resultado de seu sofrimento psíquico eles podem vir a desenvolver transtornos mentais como depressão, transtorno de estresse pós traumático e síndrome do pânico. É importante que a psicologia atue no sentido de fortalecer o sujeito para lidar todas as adversidades apresentadas e ao mesmo tempo  reconhecer-se como sujeito em toda sua singularidade. 
A despatologização nesse processo é de fundamental importância. A Fenomenologia busca justamente a especificidade do ser. Para o psicólogo Humanista, Marcos Alberto  Pinto (2007) “ precisamos encontrar a pessoa que existe e que está por trás do rótulo, pessoa esta que como todas, possuem sentimentos, histórias e sentidos.” O olhar para o sujeito, para sua história de vida, sua constituição psíquica, suas dores, suas angustias e acima de tudo trabalhar com sujeito, qualquer que seja a corrente psicológica, para que ele possa ser quem realmente ele é.

REFERÊNCIA
PINTO, Marcos Alberto. A Pessoa por trás do Diagnostico. VII Forum Brasileiro da Abordagem Centrada na Pessoa- Nova Friburgo 2007
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5: manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. 992p.
BBC Brasil  “Na escola e na família, a difícil batalha de crianças transgênero por aceitação” http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/04/150407_criancas_transgenero_uk_fn
PROGRAMA FANTÁSTICO- Rede Globo http://g1.globo.com/fantastico/ 


 

 


 

 

sábado, 29 de abril de 2017

Jaci era Alegria

 
 
Por Raquel Rocha
Comunicóloga,  Economista
Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Especialista em Neuropsicologia
Membro da Academia de Letras de Itabuna
 
 
Dia de sábado ela chegava cedíssimo com sua bicicleta. Arrumava a casa toda em 30 minutos, quando eu acordava ela estava com o maior sorriso do mundo nos lábios, uma caneca de café para mim nas mãos e o convite: "Já tá tudo pronto! Vamos bater perna na rua?" Eu dizia que a gente não tinha nada pra comprar na rua e ela repetia "Vamos só bater perna!!!"
Como resistir a um convite desses feito com um sorriso tão grande? Enquanto eu pensava na roupa que ia vestir ela já tinha arrumado Melzinha, que na época tinha pouco mais de 6 anos. Já tinha arrumado, dado café da manhã e feito um penteado lindo. Eu nunca entendi aquela habilidade que Jaci tinha de fazer tudo tão rápido e com tanto amor.
Íamos pra rua, ela ia contando que tinha chegado de alguma festa as 4 manhã e eu não acreditava como alguém que tinha dormido menos de 3 horas podia acordar com tanta energia e tanta alegria.
Sua valentia era tão grande quanto sua alegria. Jaci não deixava nada barato, xingava quem roubasse minha vaga para estacionar, gritava com quem parava o carro na rua pra conversar, falava grosso com os flanelinhas. Ela não tinha filtros, nem hipocrisia.
Andávamos, contávamos história, comprávamos bobagens que não precisávamos. Ela corria pela rua como uma criança com Mel, eu reclamava, mas era da boca pra fora, porque no fundo sabia que Mel com ela estava segura. Segura e feliz. Jaci mataria e morreria para defender minha filha de algo ruim.
Entrávamos em lojas, quando eu vestia roupa tinha que sair do provador e mostrar pra ela. Ela vestia também, parecia uma criança quando gostava de algo, “Passa o cartão?” pedia ela sem pensar no amanhã. Jaci não queria saber o preço, só queria ser feliz!
Sempre Finalizávamos nossas manhãs de sábado comendo pasteis em uma barraca de pé de muro com aparência feia. Eu não comeria lá sozinha, mas com Jaci parecia que tudo era permitido.
Chegávamos em casa cheias de sacolas empanturradas de pastéis e ela me perguntava "Precisa fazer almoço?" Claro que não precisava. Sentávamos no chão, íamos abrir sacolas, rir, fazer uma bagunça enorme que ela daria um jeito de arrumar em 3 minutos. Vamos experimentar de novo? E lá ia Jaci se vestir e vestir minha Mel com as roupas novas, desfilavam pela casa, pulavam, riam alto felizes.
Jaci foi um anjo em minha vida, o anjo mais defeituoso que já vi e também mais amoroso. O carinho que Jaci deu para minha Mel não tem preço, Jaci trouxe alegria para minha casa e para minha vida durante anos.
Um dia Jaci foi embora, se apaixonou, largou tudo, marido, emprego e seguiu seu coração... Jaci só queria ser feliz! Hoje seus filhos lhe deram netos, ela é uma avó com cara de menina. Jaci sempre será menina. Nas fotos vejo-a pegando-os no colo como pegava minha Mel, eu olho para aquelas crianças e sei que eles são extremamente sortudas por terem Jaci na vida deles, assim como eu tive.
Hoje é sábado, hoje eu acordei e senti saudade enorme de ouvir sua voz excitada me chamando: "Vamos bater perna na rua?"
 
 

quarta-feira, 26 de abril de 2017

A Psicopatia no Livro O COLECIONADOR de John Fowles

 
Por Raquel Rocha
Comunicóloga,  Economista
Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Especialista em Neuropsicologia
Membro da Academia de Letras de Itabuna
 
 
 
O Colecionados de John Fowles, best seller mundial lançado em 1963.
 
Frederick Clegg é um jovem que trabalha em uma repartição pública. Fred não tem amigos e não faz questão de tê-los. Nunca namorou. Não parece gostar nem mesmo da sua tia e sua prima, sua única família.
 
Ele nutre uma obsessão por Miranda, fica na janela do trabalho esperando ela passar, observa ela na rua, uma vez pegou o trem, sentou atrás dela. Além de observa-la ele anotava todos os passos dela em um diário.  Miranda era bonita, jovial, apaixonada por artes.
 
Abaixo um trecho do livro que descreve a infância de Frederick pra gente tentar entender a formação da sua personalidade:
 
“O meu pai morreu num desastre de automóvel. Eu tinha dois anos.
 Isso foi em 1937. Ele estava bêbado, mas a Tia Annie disse sempre que foi minha mãe quem o levou a beber. Nunca me disseram o que aconteceu, na realidade, mas mamãe foi-se embora pouco tempo depois e deixou-me com Tia Annie. Só queria divertir-se. A minha prima Mabel contou-me, certa vez (quando éramos garotos, durante uma zanga) que ela era uma mulher das ruas e que se fora com um estrangeiro. Fui estúpido e perguntei logo a Tia Annie se era verdade, e. claro, esta inventou uma mentira e nunca me disse o que quer que fosse sobre mamãe. Não me importo, agora, se ela ainda estiver viva; não a desejo conhecer. Não tenho o menor interesse nisso. A Tia Annie sempre pareceu julgar que eu tivera sorte em verme livre de mamãe e eu concordo inteiramente com ela.
Assim, fui educado por Tia Annie e pelo Tio Dick, juntamente com sua filha Mabel. A Tia Annie era a irmã mais velha de meu pai.
O Tio Dick morreu quando eu tinha quinze anos, em 1950. “
 
Ele é um tipo esquisito, que despreza todo mundo e gosta de passar seus momentos sozinhos. Seus únicos prazeres de Fred são: observar Miranda e caçar borboletas para a coleção que ele mantém há anos. Esse jovem estranho acaba ganhando uma fortuna numa espécie de loteria do futebol. Mas o que fazer com todo esse dinheiro? Fred não gostava de festas, não tinha sonhos, não desejava comprar nada, a única coisa que ele desejava era Miranda.
 
Ele tenta ter relações com uma prostituta mas não consegue. Sua sexualidade é expressa através do consumo de pornografias, com as quais ele alterna sensações de prazer e nojo. Sem encontrar nenhuma forma de satisfação com sua fortuna Fred volta a seguir Miranda, agora em Londres, para onde Miranda tinha se mudado a fim de estudar artes.
 
Um dia Fred lê num jornal de uma propriedade a venda, um lugar afastado de tudo. Ao visitar o local ele descobre que a casa possui um porão praticamente invisível ao mundo. A partir desse momento uma ideia começa a germinar em sua cabeça: Sequestrar Miranda. 
 
Fred cuida de tudo minuciosamente, desliga os telefones, reforma a casa, reforça as parede do porão, faz o isolamento acústico, coloca um porta grossa com metal no interior, em seguida ele compra “tudo” que alguém pode precisar pra viver: roupas, livros, revistas. Ele segue Miranda até que encontra uma oportunidade e a sequestra.
 
A primeira parte do livro é toda narrada pelo próprio Frederick, quem ele é, sua obsessão por Miranda, o desenvolvimento do seu plano e sua relação com a jovem enclausurada. Ele a enche de presentes, tenta ser gentil, em sua mente doentia Miranda vai se apaixonar por ele e eles vão viver juntos e felizes. Claro que não é isso que acontece, no fundo ele sabe que nunca terá o amor daquela jovem, que ela será sempre sua prisioneira, como uma das borboletas da sua coleção. Seu espécime mais bela e mais rara. Na verdade ele não a ama, ele a quer possuir simplesmente. Ele sequer tenta ter uma relação sexual com ela, só quer sentir que ela pertence a ele.
 
A relação carcereiro e prisioneira muda constantemente, Miranda grita, esperneia, sente raiva, se retrai, tenta fugir, tenta conversar, tenta negociar, tenta enganá-lo, seduzi-lo, tenta desesperadamente se livrar daquela situação mas tudo o que ela faz parece inútil.
 
Fred vai percebendo as artimanhas de Miranda e se tornando cada vez mais metódico, às vezes cruel. Em determinados trechos do livro parece ter perdido interesse por ela mas em nenhum momento cogita liberta-la.
 
A segunda parte do livro é toda narrada por Miranda. É o diário que a jovem escreveu desde o momento em que foi aprisionada. Só nessa segunda metade é que conhecemos Miranda como ela é, seu gosto pela liberdade, suas dúvidas da juventude, o que era importante na vida dela, seu desejo de sair dali e fazer as coisas diferentes.  Se você não consegue desgrudar do livro na primeira parte, talvez você ache a segunda um pouco cansativa. Miranda no tem nada de especial, é uma jovem comum como tantas outras, talvez um pouco mais mimada e até arrogante. Se a narrativa de Fred foca nela e no seu aprisionamento a dela viaja por situações e personagens que não acrescentam muito a narrativa do livro.
 
Na primeira metade do livro temos a narrativa de Fred, na segunda metade o diário de Miranda. Na terceira parte temos o desfecho dessa situação com cerca de 14 páginas e a Quarta parte é uma espécie de Epílogo.
 
Não ficamos encantados ao conhecermos Miranda, mas isso não diminui nossa angústia pelo seu confinamento. Tudo que ele faz por ela, dando-lhe roupas, livros, quadros e revistas não ameniza a crueldade do seu ato. E durante o livro percebemos que um aprisionamento como esse, sem data de acabar é muito pior do que do que uma morte, porque você priva a pessoa de sua vida, em vida.
 
O personagem Fred tem claros traços de transtorno de personalidade antissocial (também chamado de psicopatia). Essa desordem de personalidade caracterizada pelo desprezo as regras sociais, frieza e ausência de empatia. A falta de emoções e ausência de culpa são as principais características do psicopata. Fred não se importa com o sofrimento de Miranda, ele a mantém presa da mesma forma como faz com suas borboletas.                                             
   
O Psicopata é um indivíduo amoral que vive segundo suas próprias regras. Fred sente vontade de sequestrar Miranda e a sequestra, ele não se incomoda com o certo e o errado. Os psicopatas veem as pessoas como coisas, e como tais podem usadas segundo seus interesses.
 
Também não possuem emoções por isso são extremamente racionais. Há um MITO que diz que todo psicopata é inteligente. Não é. Cientistas americanos e britânicos publicaram uma recente pesquisa que mostra que na verdade os psicopatas tem uma inteligência abaixo da média. Os pesquisadores  descobriram isso depois de avaliar 187 estudos que relacionam a psicopatia com as capacidades intelectuais.  Segundo um dos pesquisadores da Universidade de St. Louis, no Missouri esse mito foi criado porque as pessoas relacionam a inteligência com duas características típicas de um psicopata: a manipulação e a sedução.
 
Acrescenta-se aí o personagem Hannibal Lecter, o psicopata mais famoso do cinema, que era inteligentíssimo e ainda fato dessas pessoas por serem frias, acabam sendo racionais e planejam seus atos com muito cuidado. Como resultado dessa mistura temos o mito de que o psicopata tem inteligência acima da média.
 
Fred confirma isso. Ele tem dificuldades em conversa sobre qualquer assunto mais profundo com Miranda, seja sobre pintura, literatura ou atualidades. Ele até finge interesse para agradar Miranda, mas fica evidente que ele não tem o mesmo nível intelectual que sua prisioneira.
 
Em determinado momento da obra os mais desatentos podem achar que Fred ama Miranda. Não ama. Ele apenas quer possuí-la. Como não há sentimento, no psicopata também não há o apego. E essa característica nos é revelada de forma perturbadora no final do livro.
 
O Colecionador é um livro inquietante, que fala nas linhas e nas entrelinhas. Livro para ser lido, digerido e relido. Não posso garantir que você vai gostar, mas posso garantir que essa obra não vai sair da sua cabeça.

Como Referir:  ROCHA, Raquel. A Psicopatia no Livro O COLECIONADOR de John Fowles Esquizofrenia Residual. Disponível em: <http://soliloquiospsicanaliticos.blogspot.com > Acesso em: __/__/____