quarta-feira, 26 de abril de 2017

Olha o aipim aêê!







Por Raquel Rocha

Comunicóloga,  Economista

Psicanalista e Especialista em Saúde Mental

Especialista em Neuropsicologia
Membro da Academia de Letras de Itabuna

 

"Olha o aipim aêê!" Ele passa todos dos dias na rua com seu carrinho de mão, já tarde da noite. Ele tem um vozeirão forte, achei que ele tinha uns 40 anos, mas depois vi que ele tem uns 20. Ele sobre e desce a ladeira gritando “Olha o aipim aêê!” às 20, 21, 22:00 horas... E ele sobe e desce empurrando seu carrinho de mão.

A primeira veze que ouvi “Olha o aipim aêê” achei estranho. Há séculos não via mais ninguém passar na rua gritando para vender nada. Lembrou-me quando morei no interio  do interior, naquela cidadezinha que de tão pequena nem cidade era ainda. Lá tudo vinha até a gente, o leite, as hortaliças, as frutas, aquela farinha e aquele café torradinhos na mesma madrugada... Achei que meu vendedor de aipim ia passar só aquela vez, senti –me inebriada de nostalgia e admiração e o deixei passar.

Mas ele passou a segunda vez, “Olha o aipim aêê” e eu quis escancaram a porta e sair esbaforida mas a rua estava escura, deserta, e eu sozinha em casa, meus critérios de segurança me retiveram dentro da fortaleza de coração partido.

Na terceira vez que ele passou eu estava decidida a comprar, já tinha deixado até o dinheiro separado, mas quando ouvi “ Olha o aipim aêê” estava no banho e mesmo saindo ensaboada, vestindo a roupa ao avesso, quando botei a cara na porta o vendedor já estava longe.

Hoje finalmente consegui alcançá-lo, gritei da janela “Moço, quanto é o aipim?” Ele gritou da rua “É dois e cinquenta Dona.” Aí eu disse feito criança “Separa dois que estou descendo!!!” 

Peguei meus dois pacotes de aipim como quem pegava dois tesouros. Não é que eu goste tanto assim de aipim, não é que a rua não tenha aipim à venda em cada esquina, é que eu olho para aquele homem subindo e descendo a rua tarde da noite com sua carrinho de aipim, trabalhando honestamente, suadamente, animadamente e eu não tenho como não sentir uma ADMIRAÇÃO monumental por esse ser humano...

E agora aqui em casa vai ser assim, aipim cozido, aipim frito, bolo de aipim, escondidinho de aipim, cocada de aipim, caldo de aipim, aipim com manteiga, com queijo, com ovo, com carne seca e me mandem receitas de aipim!!!

Porque sou dessas, movida pela Nostalgia e pelo Coração.

Olha o aipim aêê!

 
 
 
 
 

sábado, 22 de abril de 2017

"Mainha, Como a senhora está?"

Minha mãe é assim: 
Eu pergunto "Mainha, Como a senhora está?" Aí ela me conta como ela acordou, o que ela comeu, o que ela fez após o café, como está o jardim dela, quais plantas estão bonitas quais estão feias, se foi a rua, quem ela encontrou, o que conversaram, o que ela comprou, que horas chegou em casa, como ela preparou a salada e todo o resto do almoço, se o suco ficou grosso ou ralo, aí ela fala do clima, me dá noticias dos parentes do Ceará, da Bahia e dos de São Paulo, me dá notícia dos sobrinhos, das notas, de quem fica muito tempo no celular, fala de quem tá com as cuecas pequenas, de quem precisa aparar as pontas dos cabelos, fala de gente que não faço a mínima ideia quem é, fala das flores, do pé de seriguela, do caqui, do abacate, dos planos, da vida, do tempo... E eu adoro ouvi-la.


Essa é minha mãe. Fui criada assim, com muitas palavras, muitas histórias, muitas opiniões.

Então, só pra você saber, se eu perguntar "Como você está" e você me responder com uma única palavra "bem", eu sempre vou achar estranho...
 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A Casa Mais Feliz do Mundo.


 
Por Raquel Rocha
Comunicóloga,  Economista
Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Especialista em Neuropsicologia
Membro da Academia de Letras de Itabuna






 
Ficava na beira da estrada, uma estrada de terra amarela, numa  época em que quase não havia carros, o movimento que se via era de cavalos, jumentos, pessoas a pé. As crianças faziam festa, eufóricas, ao avistarem qualquer movimento ao longe. Seu Manoel venerava aquela casa, a casa que foi construída por seu pai, ele adorava morar na beira da estrada, adorava conversar com as dezenas de compadres e comadres que passavam, adorava servir água aos passantes porque no sertão, de alguma forma, todos se ajudam. Seu pai havia construído e morrido naquela casa e Seu Manoel sentia-se orgulhoso de tê-la herdado. Pretendia honrar aquele local até o fim dos seus dias.

Quando seu Manoel estava na lida, Dona Maria era quem fazia as honras da casa. Lá vinha um viajante ao longe e Dona Maria já corria ao pote para pegar água fresquinha. Os nove filhos olhavam curiosos e excitados para os que passavam. De onde vinham? Para onde iam? Poucas vezes eles haviam saído dali e o que tinham visto quando saíram era sempre menor que aquela casa. Aquela era maior e mais feliz casa do mundo.

Seu Manoel parecia mesmo era um Rei na varanda daquela grande casa, com sua esposa ao lado e seus nove filhos brincando no terreiro.

O tempo foi passando e os carros foram surgindo... Estes levantavam mais poeira que os animais.  As pessoas dos carros não paravam para pedir água muito menos para aquele “dedim de prosa”. Dona Maria não notou, estava muito ocupada nas tarefas de casa, limpando poeira, jogando água no terreiro antes de varrer com a vassoura feita de alecrim do mato. Mas seu Manoel notou a mudança, as pessoas dos carros nem olhavam mais para sua casa na beira da estrada.

 As crianças foram crescendo... de repente aquela casa enorme parecia pequena para elas. Uma a uma foram ganhando o mundo. Arrumavam empregos, esposas e maridos...  A chuva era cada vez mais escassa, a poeira cada vez maior. Ficou apenas Seu Manoel e Dona Maria naquela casa. Jamais sairiam de lá, juraram morrer naquele pedaço de chão.

 Nas datas religiosas os filhos não apareciam, estavam longe, as passagens eram caras, os trabalhos não davam folgas. Os compadres e comadres já não os visitavam com tanta frequência, estavam doentes, artrite, artrose, coração...  Aos poucos iam morrendo e somente nesses momentos Seu Manoel e Dona Maria deixavam aquela casa, para se despedir dos amigos, para velar seus corpos a noite inteira com o respeito e afeto de uma vida de cumplicidade e amor àquele chão amarelo.

Um dia Dona Maria também morreu. Não ficou doente, não sofreu, não foi ao hospital, apenas o dia amanheceu e ela não se levantou como de costume para cuidar daquela casa. Poucas pessoas no velório, nem todos os filhos puderam vir. Empregos, filhos, distância... Seu Manoel ficou sozinho naquela casa que para ele ainda era a maior do mundo, mas já não era a mais feliz.

Seu Manoel passou a acordar e se ver sozinho... Aprendeu a preparar sua comida, algo que nunca tinha feito antes. Não aprendeu a limpar a casa, não como Dona Maria. A poeira se acumulava, ele ouvia a voz da esposa mandando  ele tirar as botas antes de entrar em casa, ouvia os gritos animados das crianças que haviam avistado movimento na estrada, ouvia a voz forte do seu pai contando sobre como foi construir aquela casa numa época que as distâncias pareciam muito mais distantes. Seu Manoel se sentia tão solitário que passou a conversar com aquelas vozes... Ele não tomava banho porque Dona Maria não estava lá para mandar, ele já não preparava as refeições porque era triste comer sozinho.

A chuva era cada vez mais escassa, a poeira cada vez maior. Seu Manoel sentava na varanda dias e dias e ia ficando tão amarelado e tão envelhecido quanto aquela casa. Um dia sua filha apareceu para lhe visitar e vendo o estado do pai, sujo e conversando sozinho decidiu que ele não poderia mais viver assim. Seu  Manoel se recusou a sair, disse que morreria naquela casa como seu pai. Mas pessoas vieram, deram-lhe remédios e ele foi arrancado de lá.

Hoje seu Manoel não tem mais nome, seu genro e chama de “velho”.  O aceita em casa por causa da sua aposentadoria. Seu Manoel não tem mais a cor da poeira, tem uma cor pálida de quem nunca sai de um quarto minúsculo. Ela toma muitos comprimidos, mas ainda assim ouve as vozes, de Dona Maria, dos filhos pequenos e do seu velho pai pedindo-lhe que cuide da casa. Seu Manoel não pode cumprir o que prometeu ao pai, ele não consegue mais nem se levantar sozinho, ele não tem mais vontade própria, ele deixou de ser Rei.

A velha casa foi posta a venda há muito tempo, mas ninguém quis comprar, A chuva é cada vez mais escassa, a poeira cada vez maior. Quando vendida, aquela pequena terra será dividido por nove filhos, não vai dar quase nada... por isso a velha casa fica esquecida, na beira da estrada, abandonada, empoeirada... Ela é triste mas ainda conserva o orgulho de um dia ter sido a casa mais feliz do mundo.

Eu sei disso porque passei por lá, eu estava de carro mas parei como os antigos paravam em seus cavalos. Parei porque quando a gente vê uma casa na beira da estrada a gente tem que parar. Parei para um dedim de prosa e aquela velha casa me contou...

 

 

 
 

domingo, 22 de janeiro de 2017

Minha Paralisia Facial




Por Raquel Rocha

Esse texto é sobre um problema que poucas pessoas conhecem
É sobre o pior atendimento médico da minha vida
É sobre senhoras com pouco estudo e muita sabedoria
É sobre desapego

Assistir ao Fantástico semana passada foi como voltar no tempo... Eu tive Paralisia Facial, foi uma das piores experiências da minha vida mas que me ensinou muito.

Ocorreu há cerca de 13 anos, eu era jovem, na época eu trabalhava 20 horas por dia, nas outras 4 horas eu rolava na cama preocupada com as pendências que haviam ficado para o dia seguinte. Forcei-me até o limite do limite, do limite, físico e mental até que um dia acordei com o rosto dormente e em cerca de três horas o lado esquerdo ficou TOTALMENTE paralisado.

Eu não tinha a mínima ideia do que era,  nunca tinha visto ninguém com aquilo, não sabia nem o nome. Liguei para todos os neurologistas da cidade e nenhum tinha vaga para me atender, nem por plano, nem particular, nem pagando com meu rim.  Fiz algo que não gosto, que foi pedir para um “alguém importante” ligar para um médico e pedir que ele me encaixasse. Assim foi feito e eu fui para o Tal consultório passar por um dos piores atendimentos da minha vida.

Apesar da consulta ser uma fortuna, a secretária me olhava de cara feia, pensando no tempo a mais que passaria no consultório.  A consulta havia sido marcada para 16:00 horas. Em meu desespero, com metade da cara paralisada fui pra lá as 15:00. Fiquei sentada nessa recepção por mais de 6 horas, o rosto parecia entortar cada vez mais, o desespero aumentava, e eu via paciente após paciente entrar e sair e minha vez nunca chegava...

As 21:30 fui chamada pelo médico. Entrei na sala dele com a esperança de quem estava adentrando na luz mas na verdade estava adentrando na escuridão. Ele mal olhou para mim, deu duas batidas no meu joelho e foi logo prescrevendo os exames, sem olhar para mim disse que 90% dos casos deixam sequelas.

Eu comecei a chorar, não sei se pela sentença das sequelas (desnecessárias naquele momento) ou se pelo descaso do único médico que eu tinha achado para me atender. Não sei se alguém aqui já viu alguém com paralisia chorar mas é uma coisa monstruosa, só um lado comprime, só um lado sai lágrimas... Meu choro inesperado não esticou a consulta que durou menos de 5 minutos.

Saí da sala daquele homem estarrecida e fui pro balcão marcar a data de retorno. Não havia data de retorno. Na semana seguinte ela estaria em uma cidade, na outa semana na outra e sua rotina de pop star não lhe permitiria me ver em menos de 40 dias.

Fui para casa com aquelas solicitações de exame na mão sem acreditar que nada daquilo estivesse acontecendo, nem a paralisia, nem o médico monstro no atendimento, nem eu monstra na aparência. Eu simplesmente não sabia o que fazer.

Acho que caminhava entorpecida, a vontade de chorar tinha cessado, minha vida, minha rotina passava na minha cabeça como um filme.

Naquela noite deitei na cama e consegui agradecer a Deus por estar viva. E daí as sequelas? Meu rosto não dizia quem eu era... Meu rosto era só minha aparência.

Minha paralisia era tão forte que eu não conseguia fechar os olhos. Nessa noite tive que comprar uma pomada passar nos olhos para evitar o ressecamento das córneas e fechar os olhos com esparadrapo. (pomada receitada por mim mesma, a partir de pesquisas do meu marido na internet de pulso telefônico - não façam isso)

Acordei no dia seguinte com o rosto ainda TORTO mas com o coração incrivelmente EM PAZ. Joguei as solicitações de exame do médico fora porque não teria a quem mostrar os exames. (não façam isso jamais)

Comecei a me tratar com tudo que me indicavam. Tudo mesmo. Cada senhora que me encontrava na rua me passava um chá diferente e toda vez que eu ia numa loja de folha me aparecia uma outra senhora me receitando mais um chá. Indicaram-me uma rezadeira. Eu não tenho vergonha de dizer não gente, EU FUI NA REZADEIRA, não só um dia, mas durante 15 dias de manhã cedo, quando sol ainda não estava alto. Ela me rezava, passava os galhos em mim e me dizia as palavras de conforto que o Sujeito Neurologista com não sei la quantos anos de faculdade não aprendeu a dizer.

Fiz fisioterapia também, receitada não por neurologista, mas por um amigo médico de outra especialidade. Tornei-me amigas das fisioterapeutas que me davam dicas, me davam choques no rosto e a gente ria por eu não sentir absolutamente nada. Na maca da fisioterapia um monte de gente de aproximava com conselhos. Mandaram-me mascar chiclete o tempo para exercitar os músculos da face e eu mascava uns 50 chicletes por dia (menos na hora da reza). Aprendi fazer massagem facial para estimular a musculatura, usava pomadas e um gel.

Nesse período comecei a fazer uma auto-análise. Aprendi a perguntar “Por que” e a buscar respostas. “Por que eu tive essa paralisia”? “Por que me senti como se o mundo estivesse acabando?” “Por que preciso de um rosto para me reconhecer?”  Não sabia que eu a Raquel Psicanalista estava nascendo ali.

Não me preocupava se as sequelas ficariam ou não... eu ficava feliz com cada melhora, agradeci infinitamente a Deus quando consegui fechar os olhos sozinha pela primeira vez.

Da mesma forma que encontrei pessoas generosas encontrei muita gente ignorante que me olhava como se eu fosse uma anomalia, algumas riam, outras não conseguiam disfarçar o olhar. Essas pessoas também me ensinaram muito, com elas eu aprendi a nunca agir assim, por mais estranho que o outro fosse.

Aos poucos fui melhorando. Não sei dizer o que me curou, se a fé, se as rezas, se os galhos passados, se a fisioterapia, se os 30 chás com gosto terríveis que tomei direitinho, se a paz que fez morada em meu coração, ou se tudo isso junto. Passei cerca de um ano convivendo com os sintomas, mas foi um excelente ano.

Todo esse desabafo vem 13 anos depois porque ao assistir a reportagem eu percebi que essa que poderia ter sido uma piores experiências da minha vida na verdade foi uma das melhores. Ficar com aparência monstruosa me tornou mais humana. E eu sou muito grata por ter passado por isso.
Nos decorrer desses anos em diversos momentos lembrei dos anjos desconhecidos que cuidaram de mim, daquela rezadeira de seios fartos, sorriso largo e palavras sábias, das senhoras que me encontravam na rua e diziam “Minha fia, tenho um receita que vai fazer você ficar boazinha logo”, das fisioterapeutas que me recebiam com abraços, do médico de outra especialidade que se arriscou para cuidar de mim, do senhor raizeiro que repetia o modo de preparo das ervas pra mim com preocupação de avô... "A fia ficou boazinha." No fim de tudo, acho que fui curada pelo amor...

Você deve estar se perguntando se eu fiquei com sequelas. Fiquei sim, mas não gosto de chamar de sequelas, gosto de chamar de marcas, as maiores delas estão na alma e são lindas.



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Importante:

NÃO RECOMENDO A DECISÃO QUE TOMEI DE FAZER TRATAMENTO ALTERNATIVO PARA NINGUÉM. Por favor não façam como eu fiz, minha decisão foi uma decisão de desespero e desapego. Recomendo que façam os exames, encontrem um bom neurologista e façam o tratamento exatamente como ele prescrever. Minha opção deu certo para mim por razões que não sei explicar, mas eu ainda acredito totalmente na medicina tradicional.


domingo, 16 de outubro de 2016

A MORTE E O AMOR EM TODOS OS CANTOS DA CASA

 
Por Raquel Rocha
Comunicóloga,  Economista
Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Especialista em Neuropsicologia
Membro da Academia de Letras de Itabuna

 Dia 14/10/2016

 
A viagem foi exaustiva, das 11 da noite às 03 da madrugada. Viajar à noite não é problema, mas quando você está preparada pra dormir e recebe uma notícia de morte, então tudo fica meio surreal.

Quatro horas na estrada. Quem já passou por algo assim sabe que a pior parte é a chegada, talvez só não seja pior que a saída da pessoa amada ao cemitério... E assim foi a chegada, chegamos com nossas lágrimas, chegamos para viver o triste momento da despedida. Já estava tudo arrumado, caixão, coroa de flores, mas faltava o local. Cidade pequena não tem lugar para velório, as pessoas são veladas em casa mesmo. Ocorre que alguém havia quebrado a chave dentro da fechadura nesse mesmo dia, e a porta de casa da minha mãe não abria.  Minha avó estava sendo velada num local improvisado com 3 pessoas da família e mais 4 visitantes. Não sei qual a palavra que define a pessoa que vai ao velório... na dúvida, fica visitante mesmo.

A fechadura foi quebrada, uma pequena procissão as 03 da madrugada de onze pessoas acompanharam o translado do caixão. Onze pessoas, um caixão, cadeiras, suporte do caixão, livro de assinatura, tapete, coroa de flores...   A pequena procissão poderia ter sido a mais surreal das cenas mas ainda não foi. Trouxemos tudo pela rua e remontamos o pequeno velório na sala da casa.

Com a família aumentada nossos 4 visitantes se sentiram confortáveis para irem descansar em suas casas. Não chegaria mais ninguém. Fechamos a porta. Novamente estávamos na intimidade da família, da nossa casa. Incrivelmente aquele caixão no meio parecia tão natural... como se o lugar dele fosse ali na nossa casa, entre nós.
As crianças não tinham medo, conversavam com a bizavó já gelada, perguntavam coisas, sabiam que o momento não era de brincadeira, mas também sabiam que não era de desespero, havia respeito, serenidade e saudades.
Assim vimos o dia amanhecer, sentados na sala, conversando, relembrando, com minha avó no meio de nós.
Com o amanhecer do dia o cansaço foi se fazendo mais forte que nós, íamos deitar aos poucos...  deixar a sala era difícil tínhamos a sensação de que estávamos deixando-a sozinha... Eu queria colocar um colchão no chão para dormir ao lado do caixão e só não o fiz por falta de espaço. As 6 da manhã chegou minha vez de ser derrotada pelo cansaço, fui para o quarto ao lado, o corpo desabou numa cama, mas de alguma forma continuei na sala. Ouvia tudo, sentia tudo,
Duas horas depois levantei, o corpo pesado queria continuar deitado mas eu o arrastei para a posição vertical. Não havia tido troca de roupa, levantei pronta para continuar no velório. Sonolenta, abri a porta do quarto e me vi de cara com o caixão dando "Bom dia vó...". Toquei em sua testa, como quem toca na testa de uma criança febril esperando que ela esteja menos quente. Mas minha avó não estava menos fria.
Tudo continuou tão real como num filme de Almodóvar, tão irreal quanto os velórios americanos. Sempre achei estranho as pessoas comerem, falarem de comida nos velórios americanos, mas ali estava eu, tomando café , falando do almoço, do que seria feito, das pessoa que chegariam. Ninguém falava em hora de enterro, era como se quiséssemos deixá-la com a família pra sempre.
Não achem esse texto mórbido, ou achem se quiserem... pouco importa, mas de fato a morte nunca tinha se apresentado de forma tão natural para mim.
Continuamos só nós... pouquíssimas pessoas chegavam, um ou outro idoso da vizinhança que havia recebido a notícia e foram ao velório mesmo sem ter conhecido minha avó. Tanto desconhecimento decorre do fato de que minha avó morou a vida inteira em outro estado, Há quatro anos começou a apresentar sintomas de Alzheimer, na época meu avó já estava de cama, sem lucidez alguma. Trouxemos ambos para a Bahia, as filhas se revezaram bravamente no cuidado dos dois idosos. Minha avó chegou andando, conversando, mas não conhecia ninguém, seu olhar era distante, era como se ela não estivesse entre nós. Eu perguntava: “Vó, a senhora sabe quem sou eu?”  Ela: “Não...” Eu explicava “Sou Raquel vó, sua neta” Algo clareava na mente dela e ela dizia com olhar de reconhecimento “Ah, é a Raquelzinha!”. Sentia que ela havia me reconhecido mas 40 segundos depois quando perguntava novamente “Vó, sabe quem sou eu?” Ela respondia “Não...”
Em pouco tempo ela não sabia mais quem era ela. Minha avó agia como criança, quebrava as coisas, fugia de casa, se machucava. Um dia fugiu da cama a noite, espalhou bananas pela casa e acabou escorregando nessas bananas. Quebrou a bacia e não andou mais. O Alzheimer a levou aos poucos nesses quatro anos, acamada ela chamava minha mãe de sua mãe, já não comia sozinha, as filhas lhe davam mamadeira, foi deixando de falar, foi perdendo peso apesar da quantidade de mamadeiras que tomava, seu olhar cada vez mais perdido, sua fala mais fraca. No último ano ela mal abria o olho, não falava mais nada, a vezes gemia. Ela sofria.
Minha vó não havia morrido na noite passada, minha avó morreu aos poucos durante quatro anos. Tivemos quatro anos para elaborar essa perda, vivemos esse luto por 4 anos, por isso seu corpo no meio da sala não nos causava desespero, por isso aquela sensação de paz, de descanso, de que ela estava finalmente livre das dores, da sua mente embaralhada, do seu corpo que definhava.
Nada para minha avó foi fácil, nem sua vida nem sua morte. Minha avó perdeu sua mãe quando era muito pequena, seu pai casou-se novamente. Minha avó foi dada (dada mesmo) em casamento ao meu avô, 14 anos mais velho que ela, e que já havia sido casado com sua irmã mais velha e esta havia morrido de parto. A mais velha não deu conta, leve a mais nova, como uma mercadoria. Foi assim.
Meu avô não era fácil, era grosso, falava gritando. Minha avó teve 6 filhos com ele. Acredito que a vida com ele era menos ruim que a vida na casa do pai, porque ela nunca falou em se separar. Será que as mulheres de antigamente sabiam que tinham o direito de se separar? O fato é que minha avó permaneceu ao lado do meu avô por toda sua vida, cuidou dele até onde aguentou. Seu nome foi o último que ela deixou de falar.  Talvez o amasse, dentro do que ela conhecia do amor.
Hoje, meu avô, acamado na casa ao lado foi comunicado da morte dela. Mas ele não sabia quem era ela, não sabia o que era a morte. Meu pai o trouxe de cadeira de rodas para perto do caixão, ele olhou para o caixão como quem olhava para nada. Ele também já não está aqui, se foi antes dela.
Mais familiares chegaram...  Nos abraçávamos naquela sala vazia na cumplicidade da família, família que se entende só pelo olhar. Minha irmã chegou, parecia sofrida, ela morou com minha mãe uma parte desses quatro anos, e a ajudou cuidar da minha avó.
Um pastor chegou, ficou por cerca de 20 minutos e disse algumas palavras. Minha avó passou a vida na igreja católica mais havia de batizado na igreja evangélica antes de ficar doente. Acho que ela teria gostado das palavras ditas.
O dia pareceu durar uma semana, mas estávamos bem, estávamos juntos esticando nosso tempo com ela. Notei que nenhum jovem apareceu, nenhuma amiga, nem minha, nem das minhas irmãs, nem dos meus sobrinhos...  Disseram que iam, mas de fato, ninguém foi. Acho que os jovens não gostam de velório, num velório a morte nos esfrega na cara que nosso fim será aquele. E para que pensar em morte quando temos tanta vida?
Eu também não ia muito a velórios, não ia porque não sabia o quanto era importante ir. Mas ano passado meu sogro faleceu, inesperadamente, quando parecia forte e saudável, e eu me lembro de cada rosto amigo que esteve conosco nesse dia. Depois disso, passei a ir a todos os velórios.
Os idosos sempre vão, como se eles estivesse fazendo um depósito. Como se sua ida aos velórios dos outros garantisse que pessoas irão aos seus.  Eu acho que funciona... Porque nessa vida tudo que a gente planta a gente colhe.
O enterro foi no final da tarde, o sol já se preparava para se por. Não podíamos adiar mais. Não vou relatar a parte do cemitério... que como disse no começo desse texto é pior parte. Deixar o corpo de uma pessoa amada no cemitério é doloroso. Não gosto do formato dos cemitérios, gostaria que minha vó tivesse ido pata uma cápsula orgânica e se transformado em uma linda árvore.
Eu acho que do dia de hoje vou lembrar dela em casa, no meio da sala com a família, mesmo que dentro daquele caixão estivesse só seu corpo. Vou lembrar da saudade que sentimos, do carinho, das lembranças que lembramos, dos abraços em família, dos olhares que diziam mais que palavras, vou lembrar das crianças entendendo a morte como algo natural, das três irmãs que se despediam da mãe como se quatro anos de preparo não houvesse sido suficiente.  Nem uma vida inteira seria.
Na cidade grande onde moro os mortos não são mais velados em casa, existem locais para isso, locais onde sai um corpo e entra outro, como numa linha de produção. Locais frios. Acho os velórios em casa mais respeitoso, mais carinhosos. Não entendo por que as pessoas querem tanto se distanciar da morte, tiram os mortos das suas casas, não deixam as crianças verem, não entram em cemitério, não falam no assunto... Estão negando seu próprio caminho.
Parte desse texto foi escrito ao lado do seu caixão, a parte final agora, na volta do cemitério. Escrevo tentando sublimar mas também tentando entender. Minha avó me ensinou muitas coisas  em vida porém a mais importante ela me ensinou hoje, me ensinou que nossa partida dessa vida pode ser repleta de paz, de amor e de carinho.

Gosto de pensar em minha avó entrando no reino dos céus com uma chuva de pétalas de rosas e um monte de gente amada a esperando. Dê um abraço na tia Maria e no tio João por mim vó. Fiquem juntos aí em cima como estiveram juntos aqui na terra, desfrutem do acolhimento de Deus e da sensação de uma vida completa, na qual muitas coisas faltaram, porém o mais importante sobrou: O AMOR.
 


 

 




 

 

 

 




 

 

 

quarta-feira, 27 de julho de 2016

A Importância do Sânscrito

Por Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, 
Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Pós-graduanda em Neuropsicologia
Membro da Academia de Letras de Itabuna



No dicionário Michaelis encontramos o seguinte significado: “adj (sânsc samskrta, perfeito) 1 Relativo ou pertencente ao sânscrito ou escrito nele; sanscrítico. 2 Relativo à cultura índica clássica ou derivada dela.sm. Antiga língua da família indo-europeia; a língua clássica da Índia e do hinduísmo, em que está escrita a maioria da sua literatura desde os Vedas.”
A data do surgimento do Sânscrito é imprecisa. O Rig veda (Primeiro livro dos Veda e o mais importante deles) é um dos registros mais antigos do sânscrito. Ele reúne 1.028 hinos compostos em sânscrito védico.  Estima-se que o Rig veda foi escrito por volta de 1700–1100 a.C., durante o período védico. Apesar da data do Rig Veda, o Sânscrito védico pode ser muito anterior a essa época, apenas não temos registros.
O Sânscrito védico é uma forma arcaica do sânscrito, é a mais antiga língua dentre a família de línguas iranianas e europeias. A palavra Sâscrito vem de Saṃskṛtam. “Sam” quer dizer “junto” e “Kr” fazer, criar. Com o tempo o adjetivo verbal saṃskṛta passou a significar algo culto e refinado.
 O Sânscrito da era védica, também chamado de devabhāṣā que significa língua dos deuses, surgiu não como uma língua mas como uma maneira sofisticada de falar. O conhecimento do sânscrito indicava elevada colocação social desde a infância, ou seja, as pessoas nascidas nas castas mais altas eram educadas com o Sânscrito. Dessa forma no dicionário Aurélio o Sânscrito é definido como “Nome dado à antiga língua dos Brâmanes.”
O Sânscrito clássico é uma evolução do Sânscrito Védico. Enquanto o Sânscrito védico data 1700 a 1100 aC,  o Clássico tem seu registro mais antigo no século V a.C. com a primeira gramática do sânscrito, a de Pāṇini. Foi com Pāṇini que o devabhāṣā passou a se chamar Sânscrito. Estima-se que o sânscrito védico sobreviveu até a metade do primeiro milênio a.C quando começou a se transformar no O Sânscrito clássico.
William Jones, filólogo (estudioso da linguagem em escritos antigos) inglês nascido em 1746 descreveu o  Sânscrito da seguinte forma: “A linguagem Sânscrita, seja qual for sua idade, é de uma linda estrutura; mais perfeita que o Grego, mais copiosa que o Latim, e mais precisamente refinada que ambas, ainda compartilha com ambos uma forte afinidade, tanto nas raízes dos verbos quanto nas formas de gramática, que não pode ter sido criada por acidente; é, na verdade, tão forte, que nenhum filólogo poderia examinar as três sem acreditar que tenham nascido de uma fonte comum, que, talvez, nem exista mais.” (Sir William Jones, falando com a Asiatic Society em Calcutá (atual Kolkata) em 2 de fevereiro, 1786)
O Sânscrito nunca foi considerado uma língua morta devido ao seu uso frequente em textos e cânticos religiosos, em especial no hinduísmo mas também no budismo. A maioria das línguas faladas atualmente na Índia (são 23 línguas oficiais) são derivadas ou influenciadas pelo sânscrito. Apesar disso é um erro achar que todos os indianos falam Sânscrito. Numa tentativa de resgatar a sua importância o próprio Sânscrito foi declarado como língua oficial. O censo indiano de 1991 numerou 49.736 falantes fluentes de sânscrito. A Índia, inclusive, tem um jornal diário em Sânscrito, o Sudharma que existe desde 1970.
O sânscrito ofereceria acesso direto a um plano superior. Acredita-se que os mantras foram revelados aos grandes mestres em sânscrito, ou seja, o som dos mantras em sânscrito tem vibrações que conduzem a mente para determinado objetivo. O Som é uma propagação de onda mecânica, são ondas de deslocamento, densidade e pressão que se propagam em meios materiais. Assim, entende-se no Yoga que as vibrações das palavras podem modificar os condicionamentos da mente.
A língua sânscrita é formada por raízes. Exemplo: Mantra. “Man” significa  mente e “Tra” significa liberação, portanto a palavra Mantra pode ser traduzida como instrumento para liberar (ou conduzir) a mente. Além da palavra “mantra”, diversas outras palavras da língua portuguesa são derivadas do Sânscrito, como Ioga que vem de Yoga e significa  "integração". Já a palavra Açúcar deriva do Sanscrito sakkar ou sarkara, que significa “grãos de areia”ou “grãos doces”.  O conceito de zero também nasceu com os indianos por volta de 600 a.C, a palavra árabe “çifr” que quer dizer vazio, zero, veio do sânscrito ûnya, vazio.

Além ser um portal de  acesso direto a um plano superior, o Sânscrito também é uma chave para o conhecimento da história e da cultura original indiana. Conhecer o sânscrito nos permite compreender certos escritos que podem ter sofrido modificações na tradução para outras línguas.

terça-feira, 5 de julho de 2016

O QUE É TANTRA?




Por Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, 
Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Pós-graduanda em Neuropsicologia
Membro da Academia de Letras de Itabuna


A data não é precisa, no livro “Tantra- A Ciência Eterna” encontramos que o Tantra foi primeiro introduzido na Índia há 5000 anos aC por Sadashiva, um grande iogue que viveu nas montanhas do Himalaia (pág 17).  O tantra é uma filosofia de pensamento com características matriarcais, sensoriais, e voltadas para a natureza. A maioria das sociedades antigas carregavam consigo a filosofia tântrica, eram sociedades com divindades femininas. Assim também era o povo drávida, que vivia Índia antiga.

Acredita-se que por volta de 1500 a.C., a Índia foi invadida arianos (há teorias que dizem que eles eram oriundos do Irã outros da América do Norte) e estes povos nômades dominaram a civilização hindu (povo drávida). Os arianos (vedas) implantaram na índia sua cultura patriarcal e repressora o que acabou por dissolver (ou marginalizar) o tantrismo. Temos então o início da Era Védica caracterizado pelo sistema de castas (Brâmanes, xátriasvaixás e sudras)

O livro “A Tradição do Yoga” de George Feuerstein traz uma cronologia diferente, conforme os tópicos abaixo:
·         Era Pré-Védica 6500-4500 aC
·         Era Védica (4500-2500 aC
·         Era Brahmândica 2500-1550 aC
·         Era Pós Védica ou Upanishádica 1500-1000 aC
·         Era Pré-Clássica ou Épica 1000 -100 aC
·         Era Clássica 100 - 500 dC
·         Era Tântrica ou Purânica 500 – 1300 dC
·         Era Sectária 1300 – 1700 dC
·         Era Moderna 1700 – Época Atual

Segundo George Feuerstein “Oculto a Deusa que está no âmago de muitas escolas tântricas, já existia no princípio da época védica. Os mestres praticantes do Tantra só aproveitaram-se das escolas sagradas e elementos rituais já existentes que tinham por objeto a Deusa, e que sobreviveram até hoje , especialmente nas comunidades rurais da índias. Alguns estudiosos, por isso, atribuíram ao tantra uma antiguidade tão grande quanto a dos Vedas, se não maior. Enquanto fenômeno literário, porém, o tantra não parece ter surgido antes da primeira metade do primeiro milênio dC.” (grifo nosso)

Essa hipótese da invasão de povos arianos na Índia tem sido questionada desde o final do século XIX. Descobertas feitas a partir de escavações mostram que os vedas estavam na India há muito mais tempo, a própria literatura Védica não faz menção a suposta invasão. Mas, tendo havido invasão ou não, o fato é que o Tantra só ressurgiu por volta de 500 dC na India   Anteriormente a esse período a imperava na Índia tradição védica de separação do homem e natureza, como se o primeiro devesse superar o segundo para alcançar sua espiritualidade. Para isso os brâmanes meditavam durante horas e até dias, negando as necessidades do corpo. Os vedantas usavam uma técnica de meditação chamada pratyahara que objetivava suprimir os cinco sentidos, também entregavam a práticas extremamente dolorosas como meditar sobre brasas, negando a dor física. Os vedas buscavam a libertação do espírito através da negação da matéria. O Tantra não despareceu completamente durante esse período, mas era praticado/vivido secretamente, como uma filosofia proibida.

O Tantra ressurge ligando o homem à natureza e vendo o corpo físico como uma manifestação do divino. A ideia do corpo como um elemento importante de integração o indivíduo e o cosmo leva o homem a uma série de práticas com o corpo para alcançar tal integração, desenvolve-se assim as técnicas do Hatha-yoga. Podemos dizer que  o Hatha Yoga teve sua origem no Tantra, seu início data do século XIII com Matsyendra e Gorakshanatha. Através dos Asanas o corpo buscava se iluminar e dessa forma se conectar com a consciência suprema.

A Palavra "Tantra" é um termo sânscrito, "Tan" significa expansão e "Tra" libertação. Tantra é aquilo que liberta da escuridão. Essa expansão e libertação da escuridão é feita através do controle da mente. Ao mesmo tempo, a palavra Tantra significa teia, representando a ideia de que todas as coisas do universo estão interconectadas entre si.

O Tantra tem uma visão positiva do universo encarando o mundo  fenomenal como uma manifestação da consciência essencial e infinita, essa filosofia vê no corpo humano um templo e dessa forma carne e espírito fundem-se. É através do nosso corpo que poderemos evoluir e compreender o universo.

Com a visão de que toda existência surge da mesma Consciência Infinita, o princípio inerente ao Tantra é que cada indivíduo, ao penetrar no âmago de sua consciência individual, pode vivenciar a unidade em todas as coisas e transcender o fluxo turbulento da percepção sensorial e perspectiva fragmentadora do mundo relativo. O objetivo final de Tantra é a união com a Consciência ilimitada e não-qualificada– um estado além do ego ilimitado e da sua fragmentação da realidade.” (Tantra- A Ciência Eterna pág 9)

Existem quatro tipos de tantra: O Tantra do período Pré-Clássico, dravídico; O Tantra Clássico, adaptado aos costumes arianos (os arianos acabaram por absorver determinadas características culturais dos drávidas) e o Tantra Medieval, renascido em 500 dC que sobrevive até nossos dias. Para o Mestre Sérgio Santos, o Tantra, o Sámkhya e o Yôga são três das mais antigas filosofias indianas.

“Durante a sua evolução histórica, o tantra ultrapassou as fronteiras da Índia. Pode-se observar a sua influência principalmente na China e Tailândia, Tibete e Camboja, onde foi incorporado pelo budismo, lamaísmo e taoísmo, respectivamente. Visto a proposta do Swásthya Yôga ser a autenticidade e pureza das tradições, baseia-se essencialmente no tantrismo sob a óptica hindu. Foi na Índia que surgiu o yôga original, o Dakshinacharatantrika-Niríshwarasámkhya Yôga, hoje conhecido por Swásthya Yôga, como tal, está intimamente ligado à tradição e cultura dessa época, pelo que o essencial é perceber isso mesmo: as suas raízes, tradições, o yôga original. (Tantra - Breves Noções, Texto publicado na revista Surya Online . Anabela Silva)

O Tantra reverencia a divindade feminina. Na visão do Tantra a força feminina é a energia da criação, da sabedoria e da intuição. Shákti é poder divino feminino, aspecto feminino transcendente e sagrado. Pode ser representada por várias deusas, assim Sarasvati é a Shakti de Brahma, Parvati é a Shakti de Shiva e Lakshmi é a Shakti de Vishnu. É considerada a personificação da energia cósmica em sua forma dinâmica. A base filosófica do tantrismo é o conceito de Shaktí e Shiva: representando os princípios feminino e masculino. Shaktí é energia, simboliza o poder dinâmico e Shiva o poder estático.

Shákti é o poder (força e energia) que cria e transforma. Esse poder está nas mulheres, pois é ela quem dá a luz. O tantrismo prega a libertação da essência através da matéria, Shiva é Consciência, Parvati é matéria, por isso o tantrismdiz-se que Shiva sem Shaktí é shava, um cadáver. A consciência (Shiva) precisa da matéria (Parvati) para se manifestar. Sem Shákti, a natureza não teria forma e sem Shiva, a natureza não teria como manifestar-se. O poder criador manifesta-se devido à presença da criação e vice-versa.

Na conclusão desse estudo percebemos que é impossível estabelecer datas, bem como a ordem cronológica e quais acontecimentos de fato ocorreram, uma vez que se trata de uma época remota na qual ainda não existia o registro escrito. Depois de consultada várias obras chegamos a conclusão de que não há um consenso em relação a origem do tantra, talvez porque ela existisse desde sempre. Mas do que tentar entender é tantra é necessário perceber se essa filosofia faz sentido na forma de viver.

REFERÊNCIAS

Tantra - Breves Noções, Texto publicado na revista Surya Online . Anabela Silva

Yôga, Sámkhya e Tantra; Mestre Sérgio Santos; Uni-Yôga; pág. 80

(Tantra- A Ciência Eterna 1982, pág 17. Publicações A’nanda M’arga). Em outros documentos essa filosofia hindu data de 500 dC.

A Tradição do Yoga” de George Feuerstein (2001)